Ícones de Moda

TMS ENTREVISTA | LILIAN PACCE

por The MenStyle | 04•08•2020

Oi Lilian, tudo bem? Muito obrigado por aceitar esse papo com o TheMenStyle. Sou admirador do seu trabalho e respeito muito sua trajetória. Vamos lá?

Onde nasceu? Quais cidades já chamou de lar?

Nasci em Sp e fui para Lins com 1 ano pois meu pai foi fazer faculdade de Odontologia lá quando já tinha 4 filhos! Sou a caçula. quatro anos depois voltamos a sp.

Depois, já casada e com marido e duas filhas, morei em Londres no começo dos anos 90. uma época maravilhosa! Nunca morei em Paris mas sinto que Paris tb é um lugar que considero um pouco meu lar, pois é a cidade que mais visitei na vida!


Queria que você contasse pra gente da sua formação e como veio a se envolver com o mundo da moda?

Fiz jornalismo e psicologia por dois anos até que comecei a trabalhar como free lancer e fui me apaixonando pelo jornalismo e diminuindo os créditos de psicologia, até desistir da  faculdade, procurar um terapeuta (rsrsrs) e focar no jornalismo.

Nas redações por onde passei como frila, sempre me pediam matérias sobre arte, moda e temas assim. mas a moda nao estava no meu radar como realização profissional. Meu desejo era ser uma jornalista engajada, bem ativista. No final, a moda me levou pra isso anyway. Até que fui convidada pelo colunista mais lida da Folha, Tarso de Castro (pai de João Vicente de Castro), para ser sua assistente. Era a realização de um sonho! E na própria Folha fui indo cada vez mais pra moda, onde comecei a fazer a cobertura das semanas de moda em 1987 (Paris, Londres, Milão e NY) para a Ilustrada, colocando a moda num patamar de tema cultural e nao mais aquela visão de “mulherzinha fútil”, muito comum ainda naquela época.

 

Bom, jornalista, editora do GNT Fashion, escritora, curadora e consultora de moda brasileira. Esquecemos alguma coisa? Haha.

Sim! Publisher da plataforma digital Lilian Pacce (site, YouTube, redes sociais…) desde 2008, lembrando que o GNT Fashion foi um projeto de 18 anos que já conclui! Um marco na moda e na televisão brasileira, né?

 

O que dessas tarefas te define mais?

Todas elas, pq gosto dos diversos formatos, das diversas plataformas - mas todas são uma forma de comunicar. Fui me reinventando: Do jornal pra televisão, da televisão pra internet, pro youtube, pras redes, e daí para os livros, exposições… Há muitas maneiras de comunicar moda!

 

Qual foi a realização profissional que te fez parar e dizer: “Opa, acho que deu certo” ?

Cada passo, cada mudança dessa foi uma conquista. Agora eu te pergunto: acha que deu certo? hahaha

 Achamos que SIM né gente?


Conta pra gente esse seu lado escritora que tanto te define pelo enorme sucesso que suas publicações estão fazendo.

No dia a dia a gente se acostumou a comunicar tudo muito rápido em termos de texto - as pessoas tem lido muito mas com pouca atenção, então os textos no digital sao mais curtos. E sou uma pessoa que gosta do texto, gosta de se aprofundar e gosto de valorizar o Brasil, tão subjugado especialmente quando se fala de moda. Os registros históricos ainda são muito poucos e senti necessidade de documentar melhor alguns temas, por isso os livros.

 

 

“O Biquíni Made in Brazil”

Queremos saber tudo desse projeto que se tornou um marco na sua carreira e que já levou até exposição no Centro Cultural Banco do Brasil.

O livro surgiu exatamente dessa necessidade de valorizar algo nosso. E o que é mais nosso do que o biquíni? Os povos indígenas já usavam o que chamamos de tanga muito antes de Pedro Alvares Cabral chegar aqui, mas no entanto o mundo entende que quem criou oficialmente o biquíni foi um francês, o Louis Réard, logo depois da Segunda Guerra. De alguma maneira a história fez justiça ao Brasil: Acabamos sendo referência quando se fala de biquíni e moda praia, mesmo tendo como “concorrente” um francês, com todo savoir faire e marketing que eles tem.

Levei 13 anos pesquisando, entrevistando, escrevendo e reescrevendo o livro. E a coincidência é que quando ele estava na gráfica, ou seja, antes do lançamento ser divulgado, fui convidada para fazer uma exposição sobre moda no CCBB Rio. A resposta foi imediata: Vamos falar sobre o biquíni! Essa peça tão pequena que simboliza tantas conquistas de mulher ao longo do último século.

 

Acompanhamos seu site há muito tempo e uma das coisas mais interessantes dele é que mesmo tendo um público bem feminino sempre encontramos uma matéria ou outra focada no segmento masculino. Conta pra gente como é a curadoria do site.

Engraçado vc falar isso, mas sabia que 40% da audiência do meu canal no YT é masculina? é algo fora da curva para um canal de moda!

Há um ano a curadoria do site mudou radicalmente. Sempre fui muito ligada em sustentabilidade, onde tenho me engajado mais ativamente desde 2005. Entrei em crise com a comunicação que eu estava praticando. Não era sustentável. Muitos posts, muita coisa e no fim do dia, pouca relevância. Mudei tudo e hoje posto apenas o que eu realmente considero relevante, com prioridade para pauta da sustentabilidade, diversidade, inclusão e tecnologia na moda.

 

Vamos falar de moda masculina. Como você enxerga esse mercado no nosso país?

Um mercado ainda pouco explorado. O homem médio brasileiro se contenta com a camiseta do time de futebol, não explora seu estilo, arrisca pouco ainda. Felizmente o público gay se permite experimentar mais. E veja bem, nao é uma questão de exotismo, e sim de encontrar seu estilo e se tornar único na multidão, sem se preocupar se isso pode, isso não pode.

 

Como é o homem brasileiro em questão de estilo? Você acredita que por nós homens termos mais tabus na hora de montar um look, a moda masculina se torna fraca e sem um diferencial ?

É um paradoxo né? O brasileiro é visto lá fora como sinônimo de liberdade, culto ao corpo etc. No entanto temos um conservadorismo real aqui, que me surpreende. Isso, aliado à falta de cultura e autoconhecimento, acaba gerando tabus desnecessários.

 

 

O que é um homem moderno e bem vestido pra você?

É aquele que se conhece a ponto de criar um estilo próprio, independente de tendência.

 

Como a pandemia vai afetar nosso setor? O que você acredita vir de pontos positivos pós COVID-19?

Estávamos vivendo um mundo de excessos absolutamente insustentável. A pandemia necessariamente vai fazer com que as marcas produzam menos (pelo menos nesse primeiro momento) e o consumidor consuma menos pq seu poder aquisitivo despencou. Com isso talvez as coisas encontrem um tamanho mais real e sigam em outro patamar que, espero, seja mais sustentável e saudável tanto ambientalmente quanto social e economicamente.

 

Um bate bola rapidinho:

Uma música: Amoroso, de Joao Gilberto.

Uma comida bem tipicamente brasileira: tapioca

Uma viagem que guardou de forma especial: Amazonia, nos povos indígenas Ashaninka e Yawanawá, que ficam no Acre - minha última viagem antes da pandemia!

Um cantor: Marisa Monte

Um objeto do closet feminino: calça comprida

Todo homem tem que ter… um bom sapato (apesar que hoje todo mundo usa sneaker!)

Não acredito em homens com… paletó quadradão, sapato claro com roupa escura!

 

Pra finalizar queria que você nos deixasse uma mensagem positiva de como a Lilian queria que a moda fosse vista em um futuro próximo. (seus desejos para o setor)

Gostaria que a moda, especialmente a brasileira, fosse mais bem vista e respeitada. E que a moda em si, por outro lado, faça a lição de casa e evolua cada vez mais adotando soluções sustentáveis social e ambientalmente.

 

Obrigado por ter batido esse papo com a gente.

The MenStyle Brasil.

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